13.11.09

As duas torres

Aconteceu algo assustador há tempos, nós já nos esquecemos, e pudera eu contar-lhe. O que eu disser aqui nunca mais será dito por ninguém e, se alguém encontrar esse corajoso rascunho – feito contra a vontade do poder - covarde rascunho – escondido e desejadamente inédito , verá palavras proibidas: duas torres. Pronto, está feito, temo pelo que me espera. Para não ultrajar a memória dos que se foram no terrível dia, essas palavras tornaram-se criminosas. Não foi difícil, um pouco de auto-censura, um ou dois segundos de formulação inconsciente antes das palavras tornarem-se ar e pronto, conseguimos todos evitá-las.

O primeiro grande contratempo de que se tem notícia aconteceu numa igreja, de um credo qualquer, em um lugar de que não me lembro bem. Contava o pastor uma parábola, sobre a construção de uma torre (perdoem-me) onde os homens não se entendiam. O que ninguém poderia esperar é que a menção da torre - somente uma, não duas delas! – faria desaguar dos olhos de um fiel uma lágrima, e esse, assaltado por memórias, imagens de televisão, e associações involuntárias, todas remetendo ao fatídico dia, comoveu-se e queixou-se publicamente. A justiça decidiu que, afinal, era possível pensar naquelas torres individualmente, e que, durante a tragédia, houve mesmo alguns instantes em que só existiu uma torre. O uso dessa palavra era também ultrajante e deveria ser proibido. Hoje a parábola já quase não guarda relação com o que foi escrito originalmente, tantas as proibições que viriam a seguir.

O que acontece é que cada vida vale tanto quanto qualquer outra, cada tragédia tem seu injusto motivo e fica eternizada em uma ou duas idéias, imagens, palavras, lembranças ou frases, que passam a servir para designá-la. Para contar-lhe o que aconteceu, em alguns momentos me arrisco a usá-las, mas só para que entenda a dificuldade em dizer o que sinto, o sentimento que me invade, ainda mais correndo os riscos que corro.

Gostaria que você soubesse que a amo.

Houve um dia, porém, em que movida por amor, uma mulher assassinou um ídolo de nosso povo, e, desde então, usar tal palavra desonra sua memória. Temos que proteger a memória dos que admiramos, dos que sofreram, não podemos usar as palavras impunemente. É o que nos acostumamos a pensar. O que não é descrito, é esquecido. O silêncio apaga o passado.

Batem à porta. Perdoe-me a concisão, espero que um dia possa ler a carta. Estará escondida a partir de agora. Meu amor é como uma palavra, não significa nada mas significa tudo, muito mais do que eu ou você ou quem quer que a proíba ousaria imaginar. Batem mais forte agora. Não se esqueça: nunca, mas nunca, cite as duas torres. Ou o nosso amor. Ou (eu sinto), em breve, muito em breve, jamais ouse novamente pronunciar qualquer palavra. Proteja-se.

(conto de 2003, inédito)


26.10.09

Nunca o Nome do Menino, nova resenha...

... por Claudio Portella, na revista de literatura e arte Germina. Leia na íntegra aqui.

01 – é um genuíno romance psicológico;

02 – o tema não é novo. O que é o novo? Um protagonista feminino descobre que é um personagem de um autor;

03 – surpreendeu-me a qualidade do texto desse novo autor: Estevão Azevedo;

04 – em algumas passagens o excesso de poesia cansa;

05 – há um paralelo com Van Gohg: a protagonista pinta e decepou uma parte do corpo;

06 – em alguns momentos parece querer beirar a pieguice: mas sai ileso;

07 – sagaz a mistura de opostos: "Ele deixava o cargo, chegada a hora de dedicar-se à família, a sensação de dever cumprido, o desejo de sucesso ao próximo ocupante da pasta, o apreço por ter servido à população, o meu quarto pegando fogo, um dedo purulento jogado na pia, um menino com os ossos salientes, parecendo querer libertar-se da pele, e eu a cochilar encostada na parede";

08 – o fecho da história é magistral, por mais que pareça um exercício;


(continue lendo aqui)


21.9.09

Teoria neolombrosiana-darwinista da evolução do carro popular - aspectos demenciais

Em tempos de caos urbano, novas teorias demenciais que dêem sentido imaginariamente ao mundo em que vivemos se fazem necessárias. Daí o surgimento dessas irreflexões. Pois bem. Estudaremos, de acordo com a teoria darwiniana, a evolução do carro popular no necrossistema brasileiro. O Fusca, como já haviam batizado em alemão os alemanos, é o carro do povo. Daí ele ser a "Lucy" dessa teoria evolucionista automotiva. O próximo ponto de parada nessa estrada é obviamente o Uno. Em seguida, a árvore ganha múltiplos galhos e os descendentes são muitos, Corsa, Ka, Celta, Gol, etc. Para fins científicos, nesse estudo, utilizaremos apenas o Ka como elemento representativo desse estágio evolutivo. A escolha arbitrária do Ka é motivada pelo fato dele ser há muito objeto de estudo desse pesquisador, que cria em sua garagem um 97/97.

Antes da década de 80, o trânsito nas metrópoles brasileira era mais civilizado, como é inegável (as mulheres mais virgens, os sacos de salgadinho, mais cheios). Há quem ache que isso se devia à menor quantidade de automóveis. Um erro. Comparem as formas do Fusca, do Uno, e do Ka, este último veículo dos tempos em que atropelar mulheres vale mil pontos, com bebê no colo bônus de 500. O Fusca é quase um semi-círculo circulando pela rua. Quem vê um Fusca vindo de frente, antes de correr, vê com simpatia aquele besouro com o motorista quase espremido, as mãos segurando firmes aquele volante pequenino. O Fusca tem um olhar amistoso, herbieano mesmo.

O Uno, dois quadriláteros encaixados, um grande e outro menor na parte da frente, já é um pouco mais impassível. Tem a indiferença do carro feito de blocos de Lego. O Uno devia ter rodas quadradas, para ser mais harmônico. Não tem, mas ele vem em nossa direção como se tivesse, o Uno nasceu com o freio de mão puxado. Os faróis quadrados do Uno são como óculos de nerd, quadradões, e ninguém nunca teme apanhar do nerd.

O Ka é arredondado, mas se projeta pra frente. Mesmo parado, é como se tivesse tomado para sempre a forma que o vento, numa disparada, numa carreira descontrolada, lhe impusera. É como se o metal escorresse para a parte de trás, impulsionado por alguma velocidade antiga. Os faróis pontiagudos olham com certa raiva quem está à frente. O Ka tem sempre as sobrancelhas arqueadas, a ponta do meio baixa, num cenho franzido. As rodas mais esportivas, com seu vários aros de metais reluzentes cruzados, são como uma boca aberta cheia de dentes, prontas a mordiscar ao menos um pé pedestre incauto que tenha se aventurado para além do meio-fio.

Como será a próxima geração de carros populares? Que a evolução continue.

(Novembro de 2005)


12.9.09

...

Uma vez experimentada a doce dor da lucidez, desfaz-se a neblina da ignorância, da crença, da imortalidade do dinheiro. Você morre um dia, e isso é a coisa mais barata que faz o homem. Ele morre, ela morre. Todo dia, e isso não é triste, isso simplesmente é. O tempo torna as coisas melhores, faz a habilidade mais apurada, o conselho mais sábio, o vinho mais caro. Daí que a perfeição e a maestria estão no limiar da vida, que é o máximo a que se pode chegar - um segundo antes é o mais sábio que você jamais terá sido. Uma vez experimentada a dor da lucidez, os outros te pensarão insensível, às vezes vil, mas não saberão que a dor da lucidez vem um pouco a cada instante e que a tragédia que balançará um cego, você já a sofria sem saber muito e muito antes que acontecesse e continuará sofrendo para sempre. Quem experimenta a doce dor da lucidez dilui o desespero passageiro em melancolia contínua e difusa. Quem experimenta a dor chora para dentro, faz fluir as lágrimas invisíveis do mundo para seus olhos.


10.9.09

Falta

Onde a palavra falta
se escreve no caderno
surge no calor inverno
uma pergunta no ar salta

se fugidio há algo em pauta
um sentir que não governo
em conta alta, querer terno
como ter a tal da falta?


1.6.09

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2009

Meu romance Nunca o nome do menino está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2009. Fica aqui meu muito obrigado a todos que já dedicaram seu tempo à leitura do livro.

Abaixo, matéria da Folha Online.

Prêmio São Paulo de Literatura divulga finalistas

31/05/2009 - 12h57

da Folha Online

A relação dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2009, que premia com R$ 200 mil o vencedor em cada uma das categorias, foi divulgada neste sábado (30), durante o 2º Festival da Mantiqueira, que acontece em São Francisco Xavier, interior de São Paulo.

O prêmio, concedido pelo Governo do Estado de São Paulo, terá seu resultado anunciado no dia 3 de agosto, em cerimônia no Museu da Língua Portuguesa.

Os livros finalistas foram escolhidos após avaliação de júri formado pelos professores Ivan Marques e Marcos Moraes, escritores Menalton Braff e Fernando Paixão, livreiros Paula Fabrio e José Carlos Honório, críticos literários Marcelo Pen e Josélia Aguiar e leitores Márcia de Grandi e Mario Vitor Santos. A avaliação final será feita por um segundo grupo de jurados.

No ano passado, venceram a primeira edição do Prêmio São Paulo de Literatura o curitibano Cristovão Tezza, com "O Filho Eterno", e a estreante Tatiana Salem Levy, autora de "A Chave de Casa".

Veja a lista completa dos finalistas:

Melhor Livro do Ano (de 2008)

Carola Saavedra, "Flores azuis"
João Gilberto Noll, "Acenos e Afagos"
José Saramago, "A Viagem do Elefante"
Lívia Garcia-Roza, "Milamor"
Maria Esther Maciel, "O Livro dos Nomes"
Milton Hatoum, "Órfãos do Eldorado"
Moacyr Scliar, "Manual da Paixão Solitária"
Ronaldo Correia de Brito, "Galiléia"
Silviano Santiago, "Heranças"
Walther Moreira Santos, "O Ciclista"

Melhor Livro do Ano - Autor Estreante (de 2008)

Altair Martins, "A Parede no Escuro"
Contardo Calligaris, "O Conto do Amor"
Estevão Azevedo, "Nunca o Nome do Menino"
Francisco Azevedo, "O Arroz De Palma"
Javier Arancibia Contreras, "Imóbile"
Marcus Vinicius de Freitas, "Peixe Morto"
Maria Cecília Gomes dos Reis, "O Mundo Segundo Laura Ni"
Rinaldo Fernandes, "Rita no Pomar"
Sérgio Guimarães, "Zé, Mizé, Camarada André"
Vanessa Barbara e Emilio Fraia, "O Verão do Chibo"


17.2.09

Entrevista...

... sobre meu livro Nunca o nome do menino no site Amálgama.


12.11.08

Convite para o lançamento - Nunca o nome do menino




Na próxima terça, dia 18/11, a partir das 19h, acontecerá em São Paulo o lançamento do meu novo livro, o romance Nunca o nome do menino, pela editora Terceiro Nome. O projeto do livro foi premiado pelo Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.
Clique aqui para mais informações.

Local: restaurante São Benedito, praça Benedito Calixto, 78, Pinheiros.
Terça-feira, 18/11, a partir das 19h.


27.4.08

Pequeno conto de amor e morte

“Durante a permanência, absolutamente nada lhes faltará, eu zelarei pessoalmente para que estejam confortáveis. Depois de um ano, eu os matarei, os dois.”

Já haviam notado que não adiantaria fugir. Ao anúncio não se seguiu suspiro, comoção ou choro. Não trocaram sequer um olhar. Permaneceram atentos como para não perder de sua sorte nenhuma vírgula, que poderia lhes faltar no tempo que restava. A promessa era cumprida com esmero. Na cozinha, banheiro e quarto dispunham de todos os itens necessários – até mesmo os supérfluos – para que os dias se sucedessem sem privações e com os prazeres possíveis naquele espaço. Comida, bebida, jogos, livros, revistas, filmes. Um ano sempre parecera muito tempo, e por isso a percepção de que nesse ano nada alteraria seu destino, de que cada ontem os aproximava do momento fatal, essa perspectiva tardou a angustiar-lhes. Mas um dia o fez. Era passado pouco mais de um mês quando se viram abraçados, calados, percebendo já a falta que faria a sensação do contato do corpo de um no corpo do outro e, mais ainda, a falta que qualquer sensação lhes faria. Estariam mortos. Foi depois desse dia que a esposa começou a ter dificuldades para dormir e pediu ao homem que lhe trouxesse remédios, ao que o homem gentilmente atendeu, municiando as prateleiras do armário do banheiro com três marcas, para que ela escolhesse a que mais lhe agradava. Ela voltou a dormir um sono tranqüilo, mas no fim do segundo mês o medo de inexistir os assomava quase que ininterruptamente. Não deixariam nenhum rastro. Da angústia em que a passagem do tempo – agora cada vez mais escasso – os mergulhava, um contínuo aumento do desejo começou a se fazer notar, como se de alguma maneira o entrelaçamento das carnes, um corpo a imiscuir-se no outro até a dissolução da própria identidade, os preparassem para a morte inevitável e, paradoxalmente, os fizessem sentir-se mais vivos. No segundo dia após essa mudança radical da rotina, uma idéia surgiu de entre os lençóis. Que tivessem um filho, o primeiro e único, e que esse filho fosse a continuidade que eles já não mais poderiam ter. O decreto fora claro: morreriam os dois. Sabiam que nada seria descumprido, a criança viveria. E não tardou a obcecar-lhes a idéia, muito mais ao marido, talvez porque à esposa coubesse o ônus dos enjôos e limitações nos nove meses que o plano exigiria até concretizar-se. Até completar-se o ano, restavam-lhe dez meses. Aquela chance única tinha uma rígida data de validade, ditada pela natureza e seus ciclos. Agora, além da súbita aparição de uma libido que já ameaçava dominá-los, havia também a esperança da fuga, se não deles mesmos, ao menos de seus nomes, suas memórias. Amaram-se contínua e furiosamente, várias vezes ao dia, e sempre que o marido se acreditara capaz. Quinze dias depois, embora não houvesse como o comprovar, a mulher estava certa de que nenhuma semente a havia inoculado. Não dizia nada ao marido, semeava a dúvida para preservá-lo, ele que se apegara demais ao plano. Ela temia pela sanidade do marido na extensão dos meses que viriam se, no dia-limite, não pudesse afirmar que carregava em si a salvação que eles haviam sonhado juntos, mas que ele levara muito além da esfera dos sonhos. No penúltimo dia em que a concepção poderia ocorrer para que a criança nascesse a tempo, com seus conhecimentos de mulher ela já sabia que não seria possível engravidar. Se engravidasse depois, sofreria ainda mais com a perspectiva de entregar-se ao algoz, no dia estipulado, carregando no ventre um filho que por uma questão de poucas semanas estaria também condenado a morrer. Entristeceu-se. Mais ainda o marido, ao perceber o recado que a tristeza da mulher lhe enviava. Ela, ao ver o marido sofrer, enterneceu-se e ofereceu-lhe um remédio para dormir. Misturou à água uma dose muito maior do que a que costumava tomar. O marido dormiu um sono profundo, sem sonhos, e acordou muito tempo depois. A mulher o vigiava, mirando-o fixamente, com algumas lágrimas a escorrer e um sorriso sereno no rosto.

“Eu já não acreditava mais, mas não tenho dúvidas... estou grávida.”

O marido acompanhava com tanta atenção e cuidados que seria capaz de descrever o crescimento diário da barriga, daquele instante até o nascimento, previsto para ocorrer um dia antes do último dia. Aliviada pelo efeito que o filho tivera no espírito do marido, que agora aceitava até com certa felicidade seu destino inelutável, a esposa suportou as dores, os enjôos e os desconfortos, que aumentavam com o passar das semanas. No último dia antes de completar-se o ano que lhes havia sido anunciado, o homem realizaria normalmente o parto, com o auxílio do marido. O marido agradeceu efusivamente o sucesso do parto a aquele que no dia seguinte os mataria, e levou o recém-nascido ao banheiro para lavá-lo, após tê-lo deixado por alguns instantes no colo da mãe. Depois da tensão das últimas horas, a água quente despencando sobre a louça e o choro da criança produziram um ruído agradável e contínuo. A mãe, debilitada, assim que o marido saiu, pediu com voz fraca ao homem:

“Por favor, amanhã não conte nada a ele...”

“Eu lhes havia prometido”, o homem respondeu com voz que transmitia confiança, “que durante o tempo em que estivessem aqui nada lhes faltaria, e que estariam confortáveis. Não se preocupe... Eu não direi nada. Amanhã, apenas os matarei, os dois.”


ps: não encontrei um título satisfatório ainda, sugestões são bem-vindas.


21.2.08

Instruções

Livro de dolorir
pintar com as tintas do corpo


11.12.07

Consolação

estradas partem para quem erra


Vermelho

O palhaço quando deixa a festa esquece a graça, mesmo que na superfície do rosto ainda leve as tintas, de todas as cores. Sob a pele, uma única cor vermelha - tinta correndo em labirintos líquidos - que se disfarça de arco-íris somente ao atravessar o prisma da carne. Já os sopros que o órgão pulsante expulsa, esses descolorem antes mesmo de atingir a pele. Mágico que tira o sorriso da cartola, o palhaço preferiria tirar de dentro de si um ser. Em uma festa de escola, há tempos, ele fora um policial que corria desajeitado e tinha a bunda insistentemente chutada pelo bandido. Outra vez, em um aniversário de menino, fizera estripulias, vestido de macaco, em cima do monociclo. As crianças morriam de rir, ele vivia de risos. Mas o que dele ele entregava? Quando chegava em casa, nem sempre o primeiro que fazia era lavar-se. Antes, verificava as cartas que haviam chegado, endereçadas a alguém cujo nome ele sabia ser o seu. Uma pequena refeição. A leitura do jornal. E então a água quente correndo, as fibras da esponja esfregando os poros, no ralo um rio multicor se esvaindo e só aí sua própria coloração, meio ocre, meio apagada, restituída.

O palhaço acorda atrasado, do outro lado do ponteiro do relógio há uma criança que espera essa sua personalidade disfarçada. As veias da cabeça latejam, bom sinal, ainda há por debaixo de tantas camadas espessas de tinta um órgão que pulsa. Engole um comprimido para a dor, coração demais afeta o desempenho dos palhaços. Uma faixa branca circunda-lhe os lábios. Riscos negros sobre as pálpebras. A bola vermelha quase o impede de respirar. E parte para sofrer pelos outros e despejar sorrisos o palhaço, poeta cômico do gesto. No salão repleto, quando ele surge, uma criança desata a chorar e a mãe iniciante o acalma:
- Calma, amor, calma. É só uma fantasia, por baixo é um homem.
A vertigem de tal revelação lhe faz trançar os pés, calçados com enormes sapatos pontudos e tal balé desengonçado, que a frase ressoando na sua cabeça o faz dançar, "por baixo é um homem", tal balé que a frase embala revitalizando sua carne faz as crianças rirem. Por baixo era um homem. E agora até as mães, antes distraídas, conversando com as amigas sobre as qualidades dos filhos, até as mães começavam a sentir um frêmito, uma cócega na alma vendo o palhaço que parecia prestes a desabar num tombo de constrangedora verossimilhança. Caiu. Levantou-se enjoado, correu, pegou sua sacola e saiu pela porta. Durante alguns minutos, nada se fez na sala a não ser esperar a nova entrada triunfal do palhaço, que não aconteceria.
Um homem, ele era!, e se antes não o fora, quando tal quimera, de cores delirantes como cinza primavera, quando nascera assim tão invisível e opressora?

O palhaço corria pela rua e as pessoas o olhavam. Porque descobrira-se um homem, por debaixo de tantas fantasias, é que agora o notavam? Ele, que não se cansara nunca de viver infinitas versões de uma mesma imagem e disso extraíra aplausos, como poderia suportar a nauseante responsabilidade de perceber-se completo? E o susto da figura pintada, com suspensórios brilhantes sustentando a calça larguíssima, corria pelas calçadas despertando suspeitas. Chegou em casa e, dessa vez, foi direto ao banheiro. No espelho ele era o que sempre fora: um novo alguém a cada mirada. Encheu as mãos de sabão, ligou a torneira e esfregou. Esfregou com a urgência de um afogado que se debate. Deslizava sobre a pele as unhas como se tirasse da louça branca a gordura de uma refeição que o empaturrara até o limite do enjôo. A tinta vermelha pingava na pia. Para encontrar seu verdadeiro rosto, esfregava-se com fúria amorosa, de olhos cerrados, por baixo era um homem. Fios de tinta rubra já se contorciam na pia, avermelhavam o ralo e tingiam suas unhas quando finalmente deteve-se, abriu os olhos e encarou-se no espelho. Só o que viu foi um rosto de palhaço, a máscara intacta, a pele ainda perfeitamente branca, as pálpebras riscadas de negro, um sorriso atrofiado e fios tintos de sangue que corriam pelas bochechas e pingavam-lhe do queixo.


13.11.07

a morte

Mescla de grito ancestral e sentir de máquina, sua angústia. Nesga de sabedoria e antevisão da cegueira, a desconfiança. Fresta para o infinito nada e nascimento no espelho, o último ar. Segunda comunhão suprema entre o homem e a natureza, a transformação. Banda que toca ao acaso o tango argentino.


25.9.07

...

ama como a estrada começa

Mário Cesariny


17.9.07

...

as estradas serpenteiam
abraçam montes
terminam abruptamente
bifurcam-se
interpõem encruzilhadas
retornam ao ponto de partida
descem abismalmente
atravessam mares
galgam picos impossíveis
empoçam as águas das chuvas
desaparecem sob o mato rasteiro
desmoronam nas encostas
suportam os pilares das pontes
somem em horizontes inatingíveis
atraem os animais à noite
desdobram-se em menores
inspiram encontros de aço

as estradas só se perdem
porque o homem não sabe aonde vai


14.9.07

...

Leva aonde deveria, a estrada, se aquele que chega não é mais exatamente aquele que havia sonhado ali estar?


22.8.07

estrada

Os pés do caminhante movimentam a estrada. Assim é que a estrada chega de um lugar a outro.

O mundo é uma estrada cujas margens se tocam: pode ser estrada impossível; pode ser impossível não estar na estrada.


26.6.07

A hipocrisia da vez

Foda carbon free: só fumava o cigarro de depois se transasse plantando uma bananeira.


19.5.07

Primeira prova

Pense num jovem cheio de amigos, saudável, inteligente, com namorada, sem traumas familiares, financeiramente estável e suicida. Agora, imagine que, quando ele decide finalmente que é chegada a hora de bater as botas, toma todas as precauções necessárias. Prepara o ambiente, pôe a bala no revólver, o açucar e o veneno no copo, dois nós na corda para evitar desgraças (sair vivo?). Finalmente, escreve a carta em que explica o ato: descreve sua angústia, revela o ódio que escondeu por anos, confessa a mais temível vilania, mostra a impossibilidade de viver num mundo tão injusto, escolhe um bode expiatório qualquer. O que importa é que todo seu ato, sua mise en scène fatal, sua coragem ou covardia baseava-se na leitura da carta por seus surpresos amigos, parentes, chefes ou próximos. Eis que, disparado o tiro, derrubada a cadeira, sorvido o veneno, no último suspiro de consciência, percebe um vento, antes inexistente, entrar por baixo do vão da porta trancada. Assiste-o, já agonizando, erguer lentamente a carta de despedida da mesa, que voa preguiçosamente em direção à janela do apartamento, dá voltas e voltas, ultrapassa o vidro, volta para dentro e, caprichosamente, sai novamente para nunca mais ser lida.


(trecho do conto Faro de fato, presente em O Som de Nada Acontecendo)


12.4.07

meditação

cala, e deixa crescer dentro de ti mais e mais a voz
sinta germinar um grito inaudito que te ensurdeça
para que enfim se enovele o nó em tua garganta

cala, e deixa que te alimentem de outra e outra mágoa
delas elabore em ti um imenso vazio que te preencha
para que reverbere em vão neste teu oco tua revolta

cala, e deixa que este enorme não ainda nem nascido
prevendo desuso te eleja único e resignado objeto
para que se negue à ti o que ao outro negarias


27.2.07

Afogada em letras

Laura tecia frases mas isso não bastava. Seus mundos imaginários espalhavam-se pelo quarto, ao lado dos perfumes, cadernos e roupas. Eram tantas imagens, metáforas, parábolas e fábulas pelo chão, empilhadas atrás do armário e embaixo da cama, que ela pensava que um dia encontraria as respostas que procurava assim, escrevendo. Um dia decidiu que para entender as pessoas precisaria conhecê-las por dentro, e lá se foi investigar os mistérios do corpo humano. Mas não se pode conter a rebelião do pensamento, e quando a avalanche de idéias se dirigia em direção à mão e caneta, ela se sentava e costurava mais fios de experiência no papel. Cada um desses escritos tinha sido importante. Não ousava Laura varrê-los dali, mesmo sabendo que existia um lugar aonde iam parar as frases não-ditas, os manuscritos amassados, as palavras rabiscadas, os originais censurados, de ilustres e medíocres escritores, poetas, loucos e amantes. Deixava tudo ali mesmo, onde tinha caído, descartado temporariamente ou para sempre. Dessa vez era o último texto, estava decidida. A mente febril criava, a mão materializava. Letra após letra, sem cessar, e cada canto vazio do quarto ia sendo tomado por amores, conselhos, reflexões, desabafos. Uma crítica estendeu-se da janela até o teto. Uma poesia se multiplicava, dava a volta na estante, uma rima se enroscava no quadro. Estava mergulhada num oceano escrito. Do pescoço para baixo já não conseguia se mover, e escrevia apenas balançando levemente os dedos. Um adjetivo sujo borrava a maquiagem das bochechas. Um trocadilho sutil fazia-lhe cócegas no nariz. Quase não respirava mais. Mas escrevia. Era a última vez, a libertação. Na frente dos olhos ficou um poema romântico, daqueles em que tudo é sombrio. Fechou os olhos e desistiu de ler. Respirar era cada vez mais difícil. Uma prosa comprida, prolixa, se enrolou em seu pescoço. Estava longe do desfecho, as personagens ainda nem tinham surgido. Prosseguiu. A cada frase, ofegante, se aproximava do fim do enredo. O destino do herói seria feliz, decidiu. O pescoço doía, estava submersa em palavras. O braço já não obedecia. Os pensamentos eram difusos. O fim da prosa se aproximava, e ela se entristecia em deixá-la incompleta. Do fundo da alma, buscou forças. Respirou fundo, concentrou-se e escreveu sua última palavra: fim.

(A teia, foto de Ana Coutinho d'Almeida, Sintra, 2001)


21.12.06

O momento fatal

No dia em que o último cético viu, quando passava desavisado em frente a uma porta de igreja, uma santa chorar, nesse dia e ao mesmo tempo, em todos os lugares do mundo onde houvesse uma santa, os pequenos olhos de porcelana, madeira, cerâmica ou metal também choraram. Nesse dia choveu muito.

Antes dele, houve um momento em que o último santo, santo porque homem comum, aflito, angustiado, temeroso da morte mas humano, acima de tudo, e bom, houve um momento em que esse homem, caminhando pela rua, deixou de preocupar-se, ainda que por um milésimo de segundo, inconsciente, com o outro homem, no chão, vendo o mundo de muito perto do solo. Nesse fugaz momento, exatamente nesse instante, um homem matou o pai, sem motivo, as crianças tornaram-se inimigas, uma árvore com suas raízes derrubou os pilares de uma casa, as vilanias escondidas sobre a pele brotaram como feridas e cada fagulha de vida converteu-se em desejo de morte, e nesse momento único a torpeza foi regra e ninguém, ninguém foi capaz de resistir aos encantos dos pensamentos subterrâneos.

No primeiro suspiro falso da amante que personificava o amor real, posto que universo, de tão simples, hermético, de tão sincero, infinito, de tão raso, quando ecoou esse suspiro e enquanto o som percorreu o ar e não se dissipou no quarto, um velho esbofeteou a esposa, após uma vida de carinho e acomodação, uma menina largou a mão do primeiro namorado, corações atrofiaram e as intenções escusas tornaram-se regra, onde quer que uma palavra doce fosse soletrada. Desse dia em diante não se fizeram mais poemas e as canções tornaram-se impossíveis de serem pronunciadas.


5.12.06

O Naufrágio ou Da Importância de Ser Nobre

5 horas depois (08/05/1812)

Escravo: figura histórica intrinsecamente ligada à grande propriedade, ao latifúndio, ou, no período de declínio da escravatura, à aristocracia urbana. Definições limitadoras: amontoado de excremento em forma de palavras em sequência. Não estou na cidade, longe disso, e ainda mais isolado que em qualquer latifúndio de uma província qualquer, mesmo a mais remota. Mas meu negrinho nunca me foi mais útil, ora se não foi. A primeira hora, desde que a nau se enchera d’água e viemos aqui parar, foi de desespero. Em minha posição, porém, há que se manter o decoro, as lágrimas e meus olhos são inimigos de berço. E o que pensaria o tição, ouvindo-me ordenar "Traga-me um côco e abra-o" ou "o calor me enfastia, abane-me", e vendo-me derreter todo de medo?

5 semanas depois (15/06/1812)

Sou tentado a acreditar que ele perambula para lá e para cá na ilha, em busca de alimento para os dois, apenas movido pelo hábito de chicotadas que há muito não doem na pele mas quiçá sempre queimarão na alma. Eu lhe disse "descanse um pouco, sente-se aqui", mas o desgraçado parece que não conhece minha língua e corre para dentro do mato. Só me resta filosofar solitário, pensar sobre o belo, refletir sobre a sociedade ideal, sobre o perigoso declínio do valor da nobreza. Enquanto isso ele canta sozinho na praia, e dança, como dança o tresloucado, do mesmo modo que meu capataz me contava que a negrada fazia na senzala. Estúpido, já que tem tempo deveria dedicar-se às idéias. Como sorri... mas não está feliz, eu vejo. E minha barba coça deveras.

5 anos depois (08/05/1817)

Ah, que alma iluminada tenho eu, minha bondade faria enrubescer um santo, sim, faria. Civilizei um negro, um negro, negro lindo!, que agora é capaz de dormir ao meu lado sabendo o modo polido de deitar-se, leva-me comida à boca com os talheres improvisados de gravetos, conta-me histórias em sua língua, que ensinou-me, protege-me com um abraço forte quando as sombras da floresta entoam seus cantos, e, pobre negro, é escravo de todos os meus desejos. Rende-se ao meu ciúme fingido quando volta da mata, após uma caçada mais longa, e ainda me manda ficar quieto deitado, caso contrário dormirá lá, do outro lado da ilha onde eu não ouso chegar. Oh, triste escravo dos meus desejos. Civilizei-o, mas um dia ainda o liberto, sim, liberto. E a sociedade que ralhe comigo se quiser.


20.11.06

Volver

Volver tem, como todo filme de Almodóvar, o mérito raro de colocar seus personagens em situações que abalam nossa capacidade de julgar o que é certo e o que não é, o que é moral, o que não. Saímos do cinema incapazes de condenar. Agora, perto de outros filmes do espanhol, Volver carece de intensidade. É como se víssemos apenas o epílogo de uma estória que, essa sim, teria os elementos que Almodóvar costuma representar com maestria. Essa estória, que conhecemos através da fala dos personagens de Volver, já está, no momento dessa narrativa a que assistimos, um tanto quanto digerida por eles, o que diminui enormemente seu impacto. É como se o filme valesse a pena apenas pelo que acontecera antes, e não pelo que nos será mostrado, o que me causa um certo estranhamento. Ainda assim, são bons personagens em diálogos engraçados, encarnados por bons atores e bem dirigidos, o que já justifica a olhada.

Para finalizar, já que se trata de pais e filhos, prestem atenção e considerem a possibilidade da filha de Raimunda (Penélope Cruz), ter como pai um brasileiro bastante conhecido que vive na Espanha: ela é ou não é a cara do Ronaldinho Gaúcho?


10.11.06

O belo e o triste

Edgar Allan Poe disse no texto em que explica o processo de criação do poema "O Corvo" que buscava o efeito da beleza. E que a maior beleza está na tristeza, e o mais triste de tudo é a morte, mais ainda a morte da mulher amada. Esse é o mote do poema, o solitário angustiado com a amada que morreu, perguntando ao corvo sádico se a veria de novo e o corvo repetindo sempre o lúgubre "nevermore". Não se fez mesmo muitas coisas esteticamente atraentes com a alegria. Já com a tristeza... Na escultura, Ugolino e os filhos. No teatro, Édipo, Otelo, tantos. No cinema, o holocausto, os filmes-catástrofe (se é que desses saiu algum belo). Porque será que é assim? Eu penso que é pelo seguinte: a tristeza atrai, a beleza distrai. Quem contempla algo feliz, belo ou não, nesse mesmo e fugaz instante do primeiro olhar já se esqueceu do objeto e está gozando distraído a própria felicidade.


31.10.06

Dj Avan

Tocou Djavan no rádio do carro e eu, infelizmente, me atentei:

É um milagre... tudo que Deus criou pensando em você

Lírica-amorosa tradicional, o exagero romântico, o paroxismo da adoração da mulher amada, colocada no mais alto pedestal, inspiração para o próprio deus supremo.

Fez a Via-Láctea

O limite além do próprio limite, a criação para a qual a amada serviu de inspiração não é nem mesmo algo humano, é infinitamente mais amplo e misterioso, trata-se da Via-Láctea, a galáxia.

Fez os dinossauros

Pronto, perdeu a mulher. Isso lá é elogio que alguém faria? Não que o outro da Via-Láctea cole, mas mesmo assim. Alguma se imagina ouvindo, depois daquela noitada, muito vinho Chalise, velas no criado-mudo (de sétimo dia, que da outra tava cara) e três variações de papai-mamãe em seis minutos, "Ô bem... Deus quando pensou em você criou... criou... (olhar para o alto e para o canto, inspiração) os dinossauros." Suspiros.

(em um texto futuro qualquer, discutiremos os famosos mais fácil aprender japonês em braile e São Jorge por favor empresta o dragão dragão)


22.10.06

Português e espanhol, análise linguístico-sentimental

Oscuro é muito mais escuro.

El água escorre melhor entre as cordas vocais que a água.

Naturaleza já traz em si uma pequena intervenção humana.

Em nuvem, começa a soprar um vento que em nube não vem.

O sorriso não tem som, como quer fazer crer a sonrisa.

E em pájaro, não sibila ainda um canto.

Para ambos os poetas, porém, a tristeza é uma só.


18.10.06

Manoel de Barros, duas vezes

"Poesia é voar fora da asa"

"Poesia é o lugar onde a gente pode afirmar que o delírio é uma sensatez"


16.10.06

...

Medo, menos de estar morto do que de estar vil.


2046

Pense comigo: há quanto tempo você não vê um filme em que não apareça nem mesmo um único revólver, em que não haja nem uma única morte e em que não ocorra nenhum ato de violência física? Não vale, é claro, desenho para crianças pequenas, Teletubbies-The Movie e afins.

Em 2046 não há nada disso. Obviamente, não ter mortes, armas ou violência (se se considera um tapa na cara, sintoma do desejo, mais para atrair do que para afastar, como violência, aí esse último item está furado; mas não importa) não significa que o filme é bom, o contrário muito menos.

Há obras-primas em que o sangue escorre, e se a morte está em praticamente todas as estórias já contadas, não é à toa. Já disseram que narramos para não morrer. Quem conta um conto ganha mais um dia, como Sherazade. Normal, portanto, que a morte seja parte de todos os filmes, na imensa maioria de forma explícita: em dado momento um cadáver de alguém querido ou de um inimigo vem complicar ou resolver os fatos.

Em 2046, se se considera o lugar (o tempo que é um lugar) futurista da ficção escrita pelo protagonista, como um lugar onde se vai em busca das memórias perdidas, essa perda tem relação com a morte, mas trata-se de um morte simbólica, escondida, e não da morte de que tratamos aqui. No filme realizado por Wong Kar-wai, ninguém, durante o tempo da narrativa, expira. Perdem amores, oportunidades, lembranças, mas não a vida.

Daí que escrever um roteiro como o de 2046, que se sustenta durante os 129 minutos da projeção apostando numa delicadeza extrema, que só a sutileza dos amores retratados seria capaz de manter, para mim é um mérito impressionante. É bonito e raro ver um filme em que o impacto vem da delicadeza. Em que a eloquência vem do silêncio. Em que o amor é agudo no sinal de menos.