José Leopoldo Guimarães Andrada de Andrada. Cinco nomes e dois Andrada, um para mostrar a origem e o outro para carimbar em cima: nobre. O que não impedia um incauto qualquer, futuro desempregado, de chamá-lo de Zé. Duas letras, a primeira chiando e a segunda pontuando, unidas para transformar esse som fugaz em uma eternidade dolorida nos ouvidos do nosso Andrada.
– A - N - D - R - A - D - A! – corrigia nervoso o figurão, abrindo mão do doutor porque ele era rico, mas era boa gente, como gostava de dizer.
Mas, por mais que teimasse, não adiantava ralhar. Saía do carro, deixava a porta aberta e nem olhava para trás, ciente de que alguém a fecharia. Atravessava diversas portas sem tocar nenhuma das maçanetas. Mas sempre, sempre havia alguém que disparava o odioso monossílabo! Ora um funcionário novo, ora uma secretária mais entretida com a revista escondida sobre as pernas, embaixo da mesa, do que interessada em cumprimentar o patrão. E lá ia ele, visivelmente carrancudo, abrir a porta da sala com as duas mãos, bater atrás de si, tornar a abrir e gritar:
- Cancele a reunião da manhã, dona F-i-l-o-m-e-n-a,! – dizia lentamente, porque para tais tipos não existem filós nem betes.
Bartolomeu, sujeito de berço, daqueles de quem se ousa até dizer que a família perdeu tudo mas não perdeu a pose, telefonou para Andrada interessado em negócios. Sua empresa, de outro país, queria importar alguns equipamentos e a escolha natural foi a empresa de Andrada, tão sabidamente sólida e consistente. Negócio não se faz nem com pobre nem com rico da última estação, dizia rindo o tal sujeito. Acontece que os anos de exílio e distância do país tornaram-no saudoso do calor das pessoas, do afeto descompromissado. Por estar no estrangeiro, era capaz de ir a uma reunião de chinelo e chapéu de palha, para homenagear sua terrinha amada. Ao vê-lo nesses trajes, as pessoas perguntavam umas para as outras numa língua estranha:
- Exótico esse homem, não?
Quando Bartolomeu pegava o avião de volta, os chapéus e os chinelos ficavam, e na mala vinham os ternos, as gravatas e as bengalas. Mas chegou o momento em que, para fechar o negócio, num dia triste, de neve (quer coisa menos nossa que neve?) Bartolomeu ligou para Andrada. Ao ouvir o bom dia do amigo na linha, não se conteve de alegria, sentiu-se na terra natal e festejou:
- Bom dia! Que saudades daí, Zé!
O telefone foi desligado com tanta força que dona Filomena teve que mandar trazer outro do almoxarifado. Desse dia em diante, Andrada se transformou num verdadeiro carrasco, pois os funcionários, volta e meia, o lembravam dos milhões perdidos, quando saudavam-no pela manhã. O contador perdeu alguns centavos no balancete, foi demitido e injuriado na frente de todos, só depois de ter refeito as contas, corretas dessa vez, e de ter visto o Andrada amassá-las e jogá-las no lixo. Dona Filomena, coitada, ganhou uma mesa nova, com o tampo de vidro, mas sua felicidade só durou até a hora do almoço. Quando voltou, todos os funcionários reunidos na sala, Andrada com um sorriso:
- Senhores, gostaria de parabenizar dona Filomena na frente de todos vocês pela mesa nova. Esperamos que agora, com esse tampo de vidro, ela deixe de ler revistas de mulher mal amada escondidas sobre as pernas e atenda o telefone com mais afinco.
Dona Filomena não se controlou. Com lágrimas nos olhos, a cara vermelha de raiva e vergonha, respondeu:
- Seu... seu... seu... cavalo! – e atirou-lhe no rosto a revista que comprara na volta do almoço.
A partir daí, os empregados cumprimentaram-no como nunca, pelo nome, e Andrada podia jurar que ao fechar a porta da sala, ao longe, ouvia um relincho baixinho. Ou então, ao virar rápido para trás depois de receber um bom dia, Andrada ainda era sempre capaz de capturar um finalzinho de cochicho.
Essa bonança durou alguns meses. E a nova tempestade quem trouxe foi um moço franzino e calado, novo funcionário que, por incrível que pareça, era um dos preferidos do patrão. O rapazote foi chamado na sala do chefe e, ao sair com um sorriso no rosto e uma promoção na carteira, deixou escapulir para a faxineira:
- Seu Zé me deu um aumento!
Pela fresta da porta aberta e pelo silêncio que só costuma aparecer nessas horas, Andrada escutou a alegria de seu comandado. Saiu imediatamente e bofeteou-lhe a face. A comoção foi geral e a empáfia do gesto fez com que ecoassem pelo escritório frases como “mas que cavalo!”, “só falta esse homem andar de quatro e comer capim!” e outras do gênero.
O episódio do safanão bastou para que ficasse conhecido entre os funcionários como "cavalo". Ele passava, as pessoas pensavam "cavalo" e diziam "Andrada". Algumas vezes, distraídos, escapavam-lhes as letras e um sonoro “bom dia, cavalo” ressoava na sala, mas o chefe fingia não ouvir e fechava a sua porta sem bater, com um sorriso disfarçado no rosto.
Quando uma funcionária casou-se, pediu a dispensa e outra veio em seu lugar, Andrada não tardou a preocupar-se. Em sala fechada, no primeiro dia da moça, disse-lhe com ar sério:
- Os funcionários me chamam de Andrada. Nada de doutor nem de apelidos. Imagino até que, às minhas costas, usem certos nomes engraçados. É Andrada, entendido?
E a moça foi embora, com Andrada na cabeça, mas guardando para depois as risadas por saber que o nome engraçado, no caso, era cavalo. Mas Andrada, como bom empresário, era precavido. Disposto a nunca mais ouvir um Zé na vida, mandou fazer em bronze um busto de cavalo e colocou em cima de sua estante, bem visível. Os funcionários até hoje estranham que a porta, antes batida com tanta força, agora está sempre aberta, e de qualquer mesa da empresa não há quem não veja o cavalo de bronze e seu dono logo abaixo.