As duas torres
Aconteceu algo assustador há tempos, nós já nos esquecemos, e pudera eu contar-lhe. O que eu disser aqui nunca mais será dito por ninguém e, se alguém encontrar esse corajoso rascunho – feito contra a vontade do poder - covarde rascunho – escondido e desejadamente inédito –, verá palavras proibidas: duas torres. Pronto, está feito, temo pelo que me espera. Para não ultrajar a memória dos que se foram no terrível dia, essas palavras tornaram-se criminosas. Não foi difícil, um pouco de auto-censura, um ou dois segundos de formulação inconsciente antes das palavras tornarem-se ar e pronto, conseguimos todos evitá-las.
O primeiro grande contratempo de que se tem notícia aconteceu numa igreja, de um credo qualquer, em um lugar de que não me lembro bem. Contava o pastor uma parábola, sobre a construção de uma torre (perdoem-me) onde os homens não se entendiam. O que ninguém poderia esperar é que a menção da torre - somente uma, não duas delas! – faria desaguar dos olhos de um fiel uma lágrima, e esse, assaltado por memórias, imagens de televisão, e associações involuntárias, todas remetendo ao fatídico dia, comoveu-se e queixou-se publicamente. A justiça decidiu que, afinal, era possível pensar naquelas torres individualmente, e que, durante a tragédia, houve mesmo alguns instantes em que só existiu uma torre. O uso dessa palavra era também ultrajante e deveria ser proibido. Hoje a parábola já quase não guarda relação com o que foi escrito originalmente, tantas as proibições que viriam a seguir.
O que acontece é que cada vida vale tanto quanto qualquer outra, cada tragédia tem seu injusto motivo e fica eternizada em uma ou duas idéias, imagens, palavras, lembranças ou frases, que passam a servir para designá-la. Para contar-lhe o que aconteceu, em alguns momentos me arrisco a usá-las, mas só para que entenda a dificuldade em dizer o que sinto, o sentimento que me invade, ainda mais correndo os riscos que corro.
Gostaria que você soubesse que a amo.
Houve um dia, porém, em que movida por amor, uma mulher assassinou um ídolo de nosso povo, e, desde então, usar tal palavra desonra sua memória. Temos que proteger a memória dos que admiramos, dos que sofreram, não podemos usar as palavras impunemente. É o que nos acostumamos a pensar. O que não é descrito, é esquecido. O silêncio apaga o passado. Batem à porta. Perdoe-me a concisão, espero que um dia possa ler a carta. Estará escondida a partir de agora. Meu amor é como uma palavra, não significa nada mas significa tudo, muito mais do que eu ou você ou quem quer que a proíba ousaria imaginar. Batem mais forte agora. Não se esqueça: nunca, mas nunca, cite as duas torres. Ou o nosso amor. Ou (eu sinto), em breve, muito em breve, jamais ouse novamente pronunciar qualquer palavra. Proteja-se. (conto de 2003, inédito)





