22.12.10

Dois contos

Um dos primeiros contos de terror, não terror sobrenatural, mas sim psicológico, que me fez efetivamente sentir medo. Muitos são admiráveis pela construção, pela estilo, pela perfeição da forma, pela beleza das imagens. Mas só esse, dos clássicos do século XIX, fez, até agora, com que eu não conseguisse desgrudar os olhos das linhas que me congelavam o espírito: "O Coração Denunciador", de Edgar Allan Poe. O narrador espera no corredor, na porta do quarto, de noite, o momento ideal para matar o velho que dorme e que tem olhos de abutre. Teme que um movimento seu acorde o velho. E espera na porta esse momento enquanto ouve atentamente as batidas do coração da futura vítima e nós prendemos, como ele, a respiração.

Totalmente oposto, mas não menos impressionante, é o "Brincadeirinha", de Tchekov. A sutileza do texto disfarça uma crueldade, um sadismo sentimental que espanta - e diverte; o sofrimento alheio, não raro, nos provoca risadas. O rapaz desce com a garota, que o ama, em um trenó por uma encosta cheia de neve. A descida aterroriza a garota, que só encontra a coragem necessária no sentimento que nutre. Durante a descida, o jovem sussurra no ouvido da moça: "Te amo, Nádia..." e essas palavras tão desejadas confundem-se, no ouvido amoroso, com o vento acelerado da descida, sibilando forte e constante. Lá embaixo, ela não sabe se quem o dissera foi o amado ou se fora ilusão causada pelo vento e pede, a despeito do pavor, uma nova descida. E torna a ouvir as doces palavras, somente para em seguida tornar a ficar em dúvida sobre sua autoria. E assim segue o mistério. Tchekov disse certa vez que o contista deveria cortar o início e o fim de seus contos, pois é nesses trechos que mais se mente. Lendo Poe, de estilo contrário - o outro lado do espelho do conto -, percebe-se claramente o que queria dizer o russo: é no início e no fim, geralmente, que desfaz-se ou explica-se ou cria-se, normalmente, a chave para um entendimento total, para uma elucidação dos sentidos da narrativa que, para o russo, era completamente artificial. A vida seria, para ele, muito mais gratuidade que causalidade.

Leiam os dois.


20.12.10

Campanha contra a felicidade matutina

Feliz é quem lê até altas horas. Ou quem faz samba e amor até mais tarde e depois tem muito sono de manhã. Quem sorri quando o despertador toca ou o raio de sol cutuca a pálpebra só pode ter algo a esconder, algum desvio, só pode. Ser feliz de manhã é de uma pobreza de espírito...


6.12.10

Lançamento: Golden Shower


Nessa sexta, um baita lançamento. A revista Golden Shower tem participação de feras como Allan Sieber, MZK, Caco Galhardo, Fabio Lyra, Ota, Chiquinha, André Dahmer, Arnaldo Branco, entre muitos. 100 páginas de quadrinhos da melhor qualidade (e do mais baixo nível: sexo, perversão e muito, muito humor negro), com pitadas de literatura e resenhas.

Eu, que contribuí com um continho, estarei por lá, ao lado de outros autores e da editora e quadrinista Cynthia B.

Apareçam: Nessa, sexta, 10/12, a partir das 19h, na HQ MIX, Pça. Roosevelt, 142.


15.10.10

O cavalo

José Leopoldo Guimarães Andrada de Andrada. Cinco nomes e dois Andrada, um para mostrar a origem e o outro para carimbar em cima: nobre. O que não impedia um incauto qualquer, futuro desempregado, de chamá-lo de Zé. Duas letras, a primeira chiando e a segunda pontuando, unidas para transformar esse som fugaz em uma eternidade dolorida nos ouvidos do nosso Andrada.

A - N - D - R - A - D - A! – corrigia nervoso o figurão, abrindo mão do doutor porque ele era rico, mas era boa gente, como gostava de dizer.

Mas, por mais que teimasse, não adiantava ralhar. Saía do carro, deixava a porta aberta e nem olhava para trás, ciente de que alguém a fecharia. Atravessava diversas portas sem tocar nenhuma das maçanetas. Mas sempre, sempre havia alguém que disparava o odioso monossílabo! Ora um funcionário novo, ora uma secretária mais entretida com a revista escondida sobre as pernas, embaixo da mesa, do que interessada em cumprimentar o patrão. E lá ia ele, visivelmente carrancudo, abrir a porta da sala com as duas mãos, bater atrás de si, tornar a abrir e gritar:

- Cancele a reunião da manhã, dona F-i-l-o-m-e-n-a,! – dizia lentamente, porque para tais tipos não existem filós nem betes.

Bartolomeu, sujeito de berço, daqueles de quem se ousa até dizer que a família perdeu tudo mas não perdeu a pose, telefonou para Andrada interessado em negócios. Sua empresa, de outro país, queria importar alguns equipamentos e a escolha natural foi a empresa de Andrada, tão sabidamente sólida e consistente. Negócio não se faz nem com pobre nem com rico da última estação, dizia rindo o tal sujeito. Acontece que os anos de exílio e distância do país tornaram-no saudoso do calor das pessoas, do afeto descompromissado. Por estar no estrangeiro, era capaz de ir a uma reunião de chinelo e chapéu de palha, para homenagear sua terrinha amada. Ao vê-lo nesses trajes, as pessoas perguntavam umas para as outras numa língua estranha:

- Exótico esse homem, não?

Quando Bartolomeu pegava o avião de volta, os chapéus e os chinelos ficavam, e na mala vinham os ternos, as gravatas e as bengalas. Mas chegou o momento em que, para fechar o negócio, num dia triste, de neve (quer coisa menos nossa que neve?) Bartolomeu ligou para Andrada. Ao ouvir o bom dia do amigo na linha, não se conteve de alegria, sentiu-se na terra natal e festejou:

- Bom dia! Que saudades daí, Zé!

O telefone foi desligado com tanta força que dona Filomena teve que mandar trazer outro do almoxarifado. Desse dia em diante, Andrada se transformou num verdadeiro carrasco, pois os funcionários, volta e meia, o lembravam dos milhões perdidos, quando saudavam-no pela manhã. O contador perdeu alguns centavos no balancete, foi demitido e injuriado na frente de todos, só depois de ter refeito as contas, corretas dessa vez, e de ter visto o Andrada amassá-las e jogá-las no lixo. Dona Filomena, coitada, ganhou uma mesa nova, com o tampo de vidro, mas sua felicidade só durou até a hora do almoço. Quando voltou, todos os funcionários reunidos na sala, Andrada com um sorriso:

- Senhores, gostaria de parabenizar dona Filomena na frente de todos vocês pela mesa nova. Esperamos que agora, com esse tampo de vidro, ela deixe de ler revistas de mulher mal amada escondidas sobre as pernas e atenda o telefone com mais afinco.

Dona Filomena não se controlou. Com lágrimas nos olhos, a cara vermelha de raiva e vergonha, respondeu:

- Seu... seu... seu... cavalo! – e atirou-lhe no rosto a revista que comprara na volta do almoço.

A partir daí, os empregados cumprimentaram-no como nunca, pelo nome, e Andrada podia jurar que ao fechar a porta da sala, ao longe, ouvia um relincho baixinho. Ou então, ao virar rápido para trás depois de receber um bom dia, Andrada ainda era sempre capaz de capturar um finalzinho de cochicho.

Essa bonança durou alguns meses. E a nova tempestade quem trouxe foi um moço franzino e calado, novo funcionário que, por incrível que pareça, era um dos preferidos do patrão. O rapazote foi chamado na sala do chefe e, ao sair com um sorriso no rosto e uma promoção na carteira, deixou escapulir para a faxineira:

- Seu Zé me deu um aumento!

Pela fresta da porta aberta e pelo silêncio que só costuma aparecer nessas horas, Andrada escutou a alegria de seu comandado. Saiu imediatamente e bofeteou-lhe a face. A comoção foi geral e a empáfia do gesto fez com que ecoassem pelo escritório frases como “mas que cavalo!”, “só falta esse homem andar de quatro e comer capim!” e outras do gênero.

O episódio do safanão bastou para que ficasse conhecido entre os funcionários como "cavalo". Ele passava, as pessoas pensavam "cavalo" e diziam "Andrada". Algumas vezes, distraídos, escapavam-lhes as letras e um sonoro “bom dia, cavalo” ressoava na sala, mas o chefe fingia não ouvir e fechava a sua porta sem bater, com um sorriso disfarçado no rosto.

Quando uma funcionária casou-se, pediu a dispensa e outra veio em seu lugar, Andrada não tardou a preocupar-se. Em sala fechada, no primeiro dia da moça, disse-lhe com ar sério:

- Os funcionários me chamam de Andrada. Nada de doutor nem de apelidos. Imagino até que, às minhas costas, usem certos nomes engraçados. É Andrada, entendido?

E a moça foi embora, com Andrada na cabeça, mas guardando para depois as risadas por saber que o nome engraçado, no caso, era cavalo. Mas Andrada, como bom empresário, era precavido. Disposto a nunca mais ouvir um Zé na vida, mandou fazer em bronze um busto de cavalo e colocou em cima de sua estante, bem visível. Os funcionários até hoje estranham que a porta, antes batida com tanta força, agora está sempre aberta, e de qualquer mesa da empresa não há quem não veja o cavalo de bronze e seu dono logo abaixo.


11.10.10

...

vi uma estátua chorar
mas chovia

essa visão denuncia
um estado de alma?
ou, antes,
a triste estátua
para chorar
sob a chuva se escondia?

séculos depois
quando me vi preso nessa dúvida
chorei
choveu
de longe uma criança me avistou
e em seu olhar
reparei uma angústia
capaz de petrificá-la
por eras


28.9.10

O desembaçar

O vidro é translúcido e nos dá a ilusão de enxergar. Mas, ah, quando vem a miopia das gotículas de água vaporizadas e o clima úmido e abafado nos enclausura entre esses filtros que tornam o mundo um arremedo de impressionismo... Ou então é nossa própria respiração, a quente brisa interior que, contra nosso desejo narcisista, turva a visão no espelho. Ou nos mostra realmente como somos, com menos contornos do que gostaríamos? Bem, o verdadeiro deleite é quando, naturalmente, graças a uma corrente fria qualquer, como num passe de mágica, o vidro rapidamente se metamorfoseia e, por ondas, o que antes embaçava nossa visão vai se clareando, clareando, até que ali novamente esteja o vidro, translúcido, líquido paralisado e tímido que não quer aparecer.


21.9.10

...

Três epifanias triviais

I

Seria trágico se não fosse bobagem.
Seria uma solução se houvesse um problema
possível de resolver. Seria uma imagem
poética se houvesse espaço pra um poema.
Estando as coisas como estão, não é mesmo nada.
O que é uma pena. Pois o gesto em si é belo
como uma ruína, ou uma xícara quebrada.
(Mas não é bem gesto, e sim a intenção de fazê-lo.
É mais a idéia de uma coisa que uma coisa,
apenas um projeto, e a plena convicção
de que mais nada vai acontecer depois,
a consciência de que a pseudo-solução
há de doer a vida inteira na lembrança,
como um castigo injusto imposto a uma criança.)

(Paulo Henriques Britto. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.)


14.9.10

haikai do náufrago

maravilha
amar o mar e a ilha
ou armadilha


13.9.10

Sonetos a Orfeu

I, 22

A nós, nos cabe andar.

Mas o tempo, os seus passos,

são mínimos pedaços

do que há de ficar.


É perda pura

tudo o que é pressa;

só nos interessa

o que sempre dura.

Jovem, não há virtude na velocidade

e no vôo, aonde for.


Tudo é quietude:

escuro e claridade,

livro e flor.



(RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad: Augusto de Campos. Perspectiva, 2007.)


10.9.10

5 perguntas para os escritores com menos de 40

O blog Casmurros está fazendo uma série de entrevistas com os 20 escritores com menos de 40 anos que destacou. Leia minha participação clicando aqui.


8.9.10

O "fogo amigo" do israelense Yehoshua

Resenha para o portal iG.

"Romance retrata com delicadeza questões complexas de casal de meia-idade

Todo grande acontecimento é precedido de sutilezas. É a elas, às sutilezas, que Fogo amigo, romance do israelense A. B. Yehoshua (presente na última edição da Flip), dedica toda sua força. Delas se compõem, delicadamente, linha após linha e sem nenhuma pressa, as personagens do engenheiro Yaári e da professora Daniela, casal de meia-idade israelense que vive sete dias de distanciamento, período em que se desenrola a trama do livro."

Continue lendo aqui.


3.9.10

Rilke, na tradução de Augusto de Campos

O mundo estava no rosto da amada -

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(RILKE, Rainer Maria. Coisas e anjos de Rilke. Trad: Augusto de Campos. Perspectiva, 2007.)


16.8.10

Leia...

... a resenha de Quantas madrugadas tem a noite, romance do angolano Ondjaki.

"Quem se senta ao redor de uma mesa de bar sabe bem: o encher e esvaziar dos copos alimenta o desejo de contar histórias. Como a velhice. Talvez, nesse aspecto, o álcool seja a velhice engarrafada: põe-nos emotivos, tristes às vezes, pode prejudicar os movimentos e a memória e, como nenhuma outra coisa, ninguém há de negar, estimula a falação.
É no embalo de – muitas – cervejas que o narrador de Quantas madrugadas tem a noite nos conta as fantásticas desventuras vividas em Luanda pelo professor albino Jaí, pelo anão BurkinaFaçam e por AdolfoDido, que morre mas custa a desaparecer."

Continue a ler clicando aqui.


3.8.10

Machado no ar

Número 1 da revista online Machado no ar, com muitas coisas incríveis de fotografia, ficção, quadrinhos, reportagem - e um projeto gráfico lindo do Delfin. Além de um conto meu.

Deem uma olhada.

www.revistamachado.com.br


2.8.10

Fui incluído...

... numa lista que indica 20 escritores brasileiros com menos de 40 anos. Veja a lista completa aqui.


26.7.10

Gonçalo M. Tavares e a banalidade do Mal

"A máquina de guerra mais antiga que há é o homem. Nela, em forma de rascunho, em estado embrionário, já estão presentes todas as lâminas, todos os projéteis. É com homens e máquinas num contexto de guerra que o escritor português Gonçalo M. Tavares trabalha em A máquina de Joseph Walser, de 2004, que ganha agora edição brasileira. Joseph Walser trabalha como operador de uma grande engenhoca de função indefinida e vive com a mulher, a quem não ama, numa cidade que se converte, sem explicações, em praça de guerra."

Da resenha de A máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares, que escrevi para o iG. Continue lendo.


20.7.10

Viagem

E quando o que era sonho converteu-se em sono, na vida acordada dos dias, aí sim iniciou-se o pesadelo: de ter nas mãos o impulso e de repente não tê-lo, de ser a estrada um fio e de repente novelo, de sonhar ser o que se era e de repente não sê-lo.
A morte era um selo de estampa colorida colado à minha carta, aonde quer que eu a enviasse, ela ia comigo.


12.7.10

Descanto

o sono é o descanso que o tempo tem de nós
para o vento, o silêncio é o repouso da voz
a foz é o repouso que a margem tem do rio
para a mata, o incêndio é o descanso do frio
o cio é o descanso que o discurso tem do amor
para o pulso, a cicatriz é o repouso da dor
a nuvem é o repouso que o deserto tem do céu
para o desejo, o rosto é o descanso do véu
o tombo é o repouso que a descida tem do pé
para a vida, a morte é o descanso da fé
o tiro é o descanso que a coragem tem da paz
para a viagem, a queda é o repouso do ás
o recife é o repouso que o navio tem do mar
para o nariz, o afogado é o descanso do ar
a rima é o descanso que a fala tem do acaso
para a língua, a poesia é o repouso do raso


28.6.10

Metamorfoses

E como fosse um lastro eu me fizera nuvem e como fosse outono eu me fizera vida e como houvesse um rastro eu me fizera chuva e como fosse ontem eu me tornara sempre. Sem que um deus soubesse eu me quisera santo, sem que um som se ouvisse eu descobrira a hora, sem que um céu se abrisse eu percebera o quanto, sem que precisasse eu era prisioneiro. Como se não ferisse eu te queria espinho, como riso triste eu me sabia pranto, como se não bastasse eu te sorvia vinho e como se existisse eu me sonhava tanto.

Poesia, dê chão para quem tem sonho.


26.6.10

Sobre o amor e a poesia

O Veríssimo, o Luis Fernando, contou certa vez, numa de suas crônicas/contos, a história de uma pequena que briga com seu amado porque esse lhe dera alguns versos, de sua própria autoria, demasiado bons, sublimes. Ela ralhava algo como "para fazer algo tão bom, você deve ter se dedicado muito e deixado de pensar em mim". Ela o amaria, conta Veríssimo, se houvesse recebido uma poesia ruim cheia de sinceridade ou um verso plagiado do Vinicius. Fernando Pessoa, assinando Álvaro de Campos, disse que todas as cartas de amor são ridículas ou não seriam cartas de amor. Eu acho que eles têm razão. Transformar o turbilhão de um sentimento vivido, algo que a gente escreve menos com a mente do que com o coração, num texto com métrica exata e rima perfeita não é algo fácil. Há os cerebrais, como Cabral, que recusam-se a sucumbir simplesmente à inspiração e abster-se do controle do processo criativo, e há os que se guiam pela iluminação que se solidifica em palavras, como Bandeira. Mesmo para esses últimos, há o trabalho do verso. Normalmente em português, dizem certos linguistas, a métrica natural, a que utilizamos sem perceber, é a da redondilha menor, que tem sete sílabas poéticas. Eu quando escrevo de sopetão, quase sempre acerto em sete. O cordel, poesia popular do nordeste, costuma ter versos de sete sílabas. Estender um amor, experimentado no instante, cravado na pele, doído no espírito, para um verso decassílabo e uma rima de soneto clássico não me parece algo simples: há que se esquecer do amor, por alguns momentos, para cortar uma preposição ali, alterar um adjetivo aqui, fazer a amada mudar de roupa para entrar no rígido baile da forma poética. Tinha razão a triste pequena do Veríssimo, que duvidou da paixão do amado no poema bom. O poeta que escreve para a amada, penso, inicia o desafio de liquidar o branco do papel movido pelo amor maior ou dor lancinante. Mas basta que surjam as primeiras linhas, que os sons imaginados comecem a se encaixar na sua cabeça, que um objeto sublime de palavras se delineie imaterial na folha, basta que ele comece a ser poeta para perceber que o que ele amava naquele instante, mais que a amada, era a própria poesia.

(De 2004)


17.6.10

Sobre dúvidas sobretudo

A felicidade com aresta e a tristeza de veludo. Não se espante se se fala da alma. A pedra que é pluma e o ruído que é mudo. Não se assuste se se fala do todo. O inimigo que afaga e o amante que afoga. Não se zangue se se trata do humano. O futuro que é ontem, o presente que é antes e o passado adiante. Não ande e pense para onde, mas pense e olhe onde anda. A honestidade que fere e a certeza que falha. Não confie nos seus pensamentos, mas nunca menospreze suas ações.
Na certeza, rasgue e jogue fora. Na dúvida, escreva.


16.6.10

Sobre gostos e desgostos

Não gostei de "Tudo pode dar certo", do Woody Allen. Aí, por conta da decepção - dele sempre espero o melhor - lembrei do texto abaixo e renovei minha esperança de que seu próximo filme seja o grande filme.

Sobre gostos e desgostos

Quando se gosta muito de alguma coisa, seja o que for, o caminho natural é o de um dia decepcionar-se com ela. Pode parecer amargura mas é uma simples constatação: gosta-se de algo pelo auge dos seus encantos, da satisfação que causa, mas o auge não é para sempre, seria uma utopia. Nunca ninguém comenta: "minha comida preferida é o strogonoff desde o dia em que comi um que estava mais ou menos" ou "amo a fulana: ela até que é legal de vez em quando e nem sempre está feia".

Não é fácil contentar-se com essa descida, de algo que escolhemos para apreciar, do auge para a média ou, pior, para o fundo do poço. Ficamos com a impressão de termos sidos enganados. O Renato Russo era o ídolo da adolescência, como é que ele um dia cometeu o "mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mais uma vez"? O Romário, que na década de 90 fazia gols até jogando ao lado do Mauro Silva, quando foi para as Árabias, onde os camelos jogam mais futebol que os homens, fez feio e não fez gols. E o Caetano que, de poesia em poesia, de jóia rara em jóia rara, um dia rimou "Eta" com "Tieta"? A gente se decepciona sim. É da natureza dos gostos, o caminho natural.

O lado bom é que, dessa forma, sempre se vai atrás de outra paixão, que um dia também escorregará e, se o tombo for feio, não será perdoada. Agora, quando tudo é desesperança, quando você já achava o pudim muito doce, o sol muito quente, o cantor meio brega, aí um deles dá a volta por cima, prova que você estava enganado, que vale a pena esquecer seus deslizes, que ele merecia sua admiração. Todos esses rodeios para dizer que, se muita coisa não vai bem no mundo, muita mesmo, pelo menos o Woody Allen voltou à velha forma. Para quem não gostou de "Dirigindo no Escuro" (alguém gostou?) e sabe do que o velhinho neurótico é capaz, o novo filme, "Igual a tudo na vida", é um alívio. Engraçadíssimo e inteligente, com infinitos exemplos da ranzinzice mais bem-humorada e deliciosa que existe. (agosto de 2004)


9.6.10

A dupla chama

"Somos tempo e não podemos abrir mão do seu domínio. Podemos transfigurá-lo, não negá-lo nem destruí-lo. Isso é o que fizeram os grandes artistas, os poetas, os filósofos, os cientistas e alguns homens de ação. O amor também é uma resposta: por ser temporal, o amor é, simultaneamente, consciência da morte e tentativa de fazer do instante uma eternidade. Todos os amores são infelizes porque todos são feitos de tempo, todos são o nó frágil das criaturas temporais que sabem que vão morrer; em todos os amores, até nos mais trágicos, há um instante de felicidade que não é exagerado chamar de sobre-humana: é uma vitória contra o tempo, um vislumbrar do outro lado, esse mais além que é um aqui, onde nada muda e tudo o que é realmente é."

De A Dupla Chama: amor e erotismo, de Octavio Paz, editora Siciliano.


7.6.10

Insatisfação ou ainda bem que a grama do vizinho é mais verde

O namorado reclama da presença sufocante da cara-metade e, baixinho, aspira pela liberdade dos tempos de solteiro. Agora está livre e, de repente, percebe-se desejando nada mais do que uma monótona e previsível tarde de televisão com alguém com quem possa conversar até em silêncio, só por olhares. Pede o doce e, assim que lhe chega à língua, sonha com o salgado. Não suporta mais as buzinas, a fumaça e os perigos da metrópole, mas bastam algumas semanas idílicas no campo para que sonhe com a música urbana, com a velocidade irrefreável do cotidiano da cidade.
O ser humano é um eterno insatisfeito. Embora isso possa parecer um castigo irônico da vida, que nos faria para sempre infelizes, na verdade essa insatisfação é a mola que nos impele para frente, que não nos deixa acomodar. Mesmo que, assim que o novo objetivo seja alcançado, nos pareça não ter valido a pena, e, então, lá vamos nós, insatisfeitos de novo, em busca de outra coisa. Quem se contenta com pouco vive mais feliz, é verdade. Mas é uma felicidade ilusória, de quem veio ao mundo sem a ambição de conhecê-lo, de quem espera que a vida passe sem sobressaltos. É preciso coragem para duvidar, para sair do conforto da ignorância e buscar respostas que talvez nem existam, ou que podem ser mais cruéis do que imaginávamos.
Eu costumo desconfiar de pessoas que conseguem encontrar, enfaticamente, um livro favorito, ou que adoram demasiadamente um músico ou banda. É claro que há um certo exagero nesse pensamento, pois eu mesmo tenho minhas preferências, mas me assusta qualquer gosto fundamentalista. Acho pobre que alguém se contente demais com algo a ponto de abandonar as buscas. O mundo é muito complexo para uma só paixão.
Tudo isso é, tenho consciência, inconcluso, talvez pessoal demais. Talvez, do outro lado das palavras, eu tenha um leitor aborrecido e completamente decicido, plenamente feliz com tudo o que tem, e ansiando por nada mais do que a estabilidade já alcançada. Saciado de conhecimento ou conhecedor de tudo que há. É possivel. Se eu tivesse certeza de que essas linhas trariam verdades, estaria me contradizendo.

(de 2004)


14.5.10

Memórias da rua

Escrevi e publiquei o texto abaixo no blog em maio de 2004. Nunca mais vi Toninha nas imediações da Paulista, Marechal Deodoro ou em quaisquer outras ruas, praças ou viadutos. Anos depois desse texto, uma outra lembrança de Toninha circulou nas duras críticas que um ex-repórter fez à Rede Globo: "Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha - nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil". "Mendiga de estimação" é uma expressão terrivelmente infeliz. O que me interessa nessa menção, no entanto, é que a impressão causada pela mendiga e que a levou a gravar-se na memória do jornalista - e provavelmente de muita gente daquele bairro, naquela época - é da mesma espécie da que criou em mim a necessidade do texto abaixo.

Memórias da rua

Nas imediações da avenida Paulista vive uma mendiga. Uma senhora, idade perdida entre os andrajos, cabelo grande, duro, uma rede de nós, sorriso de quem há muito já perdeu a sanidade para proteger-se da vida miserável que leva. Cruzei com ela dia desses e me lembrei. Houve um tempo em que eu era vândalo. Uma criança, com seus oito ou nove anos, que junto com outros pirralhos divertia-se, por exemplo, jogando ovos nas janelas abertas dos apartamentos dos primeiros andares do bairro. Eu vivia na rua, passava as tardes e as férias da escola fora de casa, com a turma e, entre um futebol e um esconde-esconde, sempre sobrava tempo para aprontar algumas. Pouco depois já era um adolescente comum, bem comportado dentro dos limites da adolescência - há certos absurdos que só se perdoam em função da idade. Hoje eu devo cometer algumas outras irresponsabilidades que talvez eu me perdoe quando tiver quarenta.

Naquela época, nos afligia um nome: Pinguim. Os Pinguins eram irmãos que moravam num bairro próximo ao nosso e que tinham fama de serem trombadinhas. O menor, Pinguinzinho, era ainda pequeno demais para fazer jus à fama, mas já assustava. O do meio tinha idade para roubar o nosso escasso dinheiro, que invariavelmente usaríamos para comprar figurinhas dos times de futebol, doces ou gibis. Do próximo, já mais velho que nós, dizia-se que roubava toca-fitas. Para o mais velho, um banco seria desafio aceitável. O fato é que nunca tínhamos tido problemas com eles, éramos do bairro vizinho, os conhecíamos de vista. Mas bastava um rumor, um boato de que algum Pinguim vinha subindo a rua, nas proximidades da praça Marechal Deodoro, para que nós corrêssemos para a casa do que morasse mais próximo. Bons tempos. Bons porque são memória. Bons porque foram vividos intensamente. Bons porque passaram. Foi o tempo em que percebi, em casa, que a vida também podia ser triste. Foi o tempo em que descobri que era capaz de dar uns belos dribles e fazer gols. O tempo em que eu comecei a criar coragem para me aventurar pelas ruas de São Paulo sem a companhia dos meus pais. O tempo mais longínquo, dos que me lembro, em que percebo o surgimento de traços que eu carregaria até hoje.

Foi nesse tempo, também, que uma mendiga, com o cabelo duro, uma rede de nós, um sorriso de quem há muito já perdeu a sanidade e olhos vazios gritava com um bando de meninos na rua e batia com um pedaço de pau nos carros. Era a Toninha. Certa vez, os funcionários da Rede Globo, que nessa época ainda ficava por ali, pagaram-lhe um quarto de pensão, deram-lhe um emprego. De vazio o olhar passou a cheio e a senhora, talvez agora Dona Antônia, passeava pelo bairro de vestido simples e cabelo preso com fita. Quando a ajuda cessou, foi questão de tempo ela perder-se de novo pelas ruas do bairro. Vendo-a, depois de quinze anos, com a mesma idade indefinida, caminhando agora pela avenida Paulista, talvez seu novo lar imaginário, eu descobri que ela nunca mais encontrou ajuda. E que o ser humano, para minha alegria e tristeza, é capaz de resistir a sofrimentos demais para uma só vida.


6.2.10

Invictus e o montinho

Uma história incrível, com fatos e personagens reais, nas mãos de um cara que – mesmo quem considera seus filmes excessivamente melodramáticos não o pode negar – filma muito bem: planos-sequência, enquadramentos, direção de atores, tudo de que um roteiro precisa, mesmo os menos brilhantes, para se transformar em grande filme.

De Invictus, nova direção de Clint Eastwood, não se precisa, portanto, dizer muito, se se quer falar da arte cinematográfica. Ou de enredo: uma vida como a de Nelson Mandela, um momento político como o da África do Sul pouco após o fim do apartheid e uma competição esportiva mundial, em que um azarão, dono da casa, se destaca, tudo isso entrelaçado.

Não falemos do mais óbvio mais do que já falamos, então. Não sobra nada? Sobra. Não tem tanto a ver com esse filme em específico. Mas sim com o esporte que ele retrata em magníficas cenas: o rúgbi. Nele, eu nunca havia prestado atenção. Imaginava um bando de brutamontes que, como no futebol nunca haviam conseguido chutar uma bola por debaixo do travessão, decidiram sabiamente fazer valer apenas o chute que mandasse a bola por cima dele. E também premiar com pontos o dono da bola de futebol que, preterido por ambos os times por jogar muito mal, encaixa a redonda debaixo do braço e foge alucinadamente dos colegas que tentam reavê-la para iniciar a partida. E dar-lhe uns cascudos.

Imaginava tudo isso, e considerava algo chato. Bem, o chute por cima do travessão ainda considero um erro, não consigo me desvencilhar de anos de xingamentos ao beque de futebol que vai ao ataque e quando a bola, mansa, masoquista, sobra na pequena área pedindo para ser chutada – mas com jeito, senão machuca –, ele o faz com excesso de vontade, como se afastasse um cruzamento de sua própria área, e manda lá para o alto, para a arquibancada onde estamos.

Já o lance da fuga desesperada com a bola, enquanto os garotos privados da brincadeira correm atrás de seu dono, ganhou um brilho todo especial quando vi o filme, porque me dei conta de um grande mérito, um triunfo inquestionável do rúgbi. Quem o inventou foi um gênio e sabia que ele seria um sucesso, por uma única razão. O rúgbi se baseia em algo que toda turma de homens adolescentes adora, e que é, muitas vezes, um ritual iniciático, e em outras apenas uma boa desculpa para dar joelhadas nas costas do melhor amigo ou cotoveladas no pescoço de um desafeto: o montinho.

O rúgbi é um esporte completamente inspirado e baseado no montinho. Sem o montinho, o rúgbi não é nada, o rúgbi o institucionaliza, o insere nas salas de estar das famílias dos países onde o esporte é praticado. Montinho – há quem chame de bolinho, mas bolo é doce e, portanto, obviamente, coisa de menina –, o bastião da masculinidade nos recreios ou nas salas de aula sem professores.

Montinho, um ataque em que o líder, o pioneiro, o que passa o rodo na vítima e se joga sobre ela, é um abnegado que se doa sabendo que ser o segundo é ainda mais sofrido do que ser a própria vítima, visto que o chão é duro, mas é liso e não tem osso, ao passo que ele, o segundo, terá sob si os joelhos e os cotovelos da vítima que se debate e sobre si tudo que a anatomia tem de mais sólido e pontiagudo, e mais o peso de três, cinco, sete, doze colegas, entre eles o gordinho que primeiro pede o teco do lanche de todos no recreio, e só então vai à cantina comprar as três coxinhas diárias que a parca mesada lhe permite.

O montinho, que prevê a mobilidade social – primeiro, vítima, depois, para descontar em alguém, líder da emboscada ao nerd da turma B e, em seguida, mais experiente, alpinista que atinge o cume da montanha humana, e no alto pisa e pula com todas as suas forças. O montinho, que nos prepara para a vida produtiva, ensinando-nos a aceitar, resignadamente, que pisem sobre nossas cabeças, como farão nossos chefes.

O montinho, que nos ensina que, quando estamos no alto, com as pernas fixas sobre a plataforma movediça formada pelas costas de nossos melhores amigos, com os braços abertos, imitando um surfista para as garotas da classe, a queda é inevitável, e que assim serão também nossas vidas: chegamos ao topo, sentimos o chão desmoronar sob nossos pés, caímos – talvez com o cotovelo na orelha de alguém que já caiu antes – e temos que recomeçar lá de baixo.

Montinho. Que o rúgbi o leve aos quatro cantos do mundo, e que dos campos o montinho escape, para perder novamente qualquer regra e qualquer ordenamento e retorne ao lugar que lhe pertence, entre os adolescentes de todas as escolas, ruas, clubes, condomínios e entre os adultos nostálgicos da cordial brutalidade de suas infâncias.


19.1.10

Sobre o tempo e as lembranças

Ouvindo a banda Gentle Waves, da ex-integrante do Belle and Sebastian, Isobel Campbell, eu me lembro de música de ninar. Músicas feitas de lembranças felizes e que, justamente por isso, são sempre um pouco tristes. Em momentos realmente felizes, somos alheios às lembranças. A alegria genuína faz parar o tempo, desintegra instantaneamente o passado, que não mais nos importa, e o futuro, que não desejamos que chegue. A felicidade plena, o êxtase, é a única capaz de derrotar Cronos e Mnemosine. Por isso, uma música feita de lembranças felizes, de lirismo infantil, sempre deva soar triste. Qualquer lembrança feliz é irmã gêmea da melancolia, que é privilégio dos que têm saudade. A tristeza nunca se esquece da felicidade, mas a felicidade tem uma péssima memória. Na verdade não tem memória, porque deseja que o tempo não exista. A felicidade vive numa sucessão contínua de presentes. Afogado no prazeroso mar de exclamações, se uma interrogação escapa, se um som remete a uma canção de ninar, se um cheiro lembra um doce de infância, e um gesto, uma namorada, é porque, nesse instante, a felicidade já escorre por uma fresta, e por outra, em silêncio, a melancolia ocupa seu espaço.

(publicado no passado, mas lembrado hoje.)


26.10.09

Nunca o Nome do Menino, nova resenha...

... por Claudio Portella, na revista de literatura e arte Germina. Leia na íntegra aqui.

01 – é um genuíno romance psicológico;

02 – o tema não é novo. O que é o novo? Um protagonista feminino descobre que é um personagem de um autor;

03 – surpreendeu-me a qualidade do texto desse novo autor: Estevão Azevedo;

04 – em algumas passagens o excesso de poesia cansa;

05 – há um paralelo com Van Gohg: a protagonista pinta e decepou uma parte do corpo;

06 – em alguns momentos parece querer beirar a pieguice: mas sai ileso;

07 – sagaz a mistura de opostos: "Ele deixava o cargo, chegada a hora de dedicar-se à família, a sensação de dever cumprido, o desejo de sucesso ao próximo ocupante da pasta, o apreço por ter servido à população, o meu quarto pegando fogo, um dedo purulento jogado na pia, um menino com os ossos salientes, parecendo querer libertar-se da pele, e eu a cochilar encostada na parede";

08 – o fecho da história é magistral, por mais que pareça um exercício;


(continue lendo aqui)


21.9.09

Teoria neolombrosiana-darwinista da evolução do carro popular - aspectos demenciais

Em tempos de caos urbano, novas teorias demenciais que dêem sentido imaginariamente ao mundo em que vivemos se fazem necessárias. Daí o surgimento dessas irreflexões. Pois bem. Estudaremos, de acordo com a teoria darwiniana, a evolução do carro popular no necrossistema brasileiro. O Fusca, como já haviam batizado em alemão os alemanos, é o carro do povo. Daí ele ser a "Lucy" dessa teoria evolucionista automotiva. O próximo ponto de parada nessa estrada é obviamente o Uno. Em seguida, a árvore ganha múltiplos galhos e os descendentes são muitos, Corsa, Ka, Celta, Gol, etc. Para fins científicos, nesse estudo, utilizaremos apenas o Ka como elemento representativo desse estágio evolutivo. A escolha arbitrária do Ka é motivada pelo fato dele ser há muito objeto de estudo desse pesquisador, que cria em sua garagem um 97/97.

Antes da década de 80, o trânsito nas metrópoles brasileira era mais civilizado, como é inegável (as mulheres mais virgens, os sacos de salgadinho, mais cheios). Há quem ache que isso se devia à menor quantidade de automóveis. Um erro. Comparem as formas do Fusca, do Uno, e do Ka, este último veículo dos tempos em que atropelar mulheres vale mil pontos, com bebê no colo bônus de 500. O Fusca é quase um semi-círculo circulando pela rua. Quem vê um Fusca vindo de frente, antes de correr, vê com simpatia aquele besouro com o motorista quase espremido, as mãos segurando firmes aquele volante pequenino. O Fusca tem um olhar amistoso, herbieano mesmo.

O Uno, dois quadriláteros encaixados, um grande e outro menor na parte da frente, já é um pouco mais impassível. Tem a indiferença do carro feito de blocos de Lego. O Uno devia ter rodas quadradas, para ser mais harmônico. Não tem, mas ele vem em nossa direção como se tivesse, o Uno nasceu com o freio de mão puxado. Os faróis quadrados do Uno são como óculos de nerd, quadradões, e ninguém nunca teme apanhar do nerd.

O Ka é arredondado, mas se projeta pra frente. Mesmo parado, é como se tivesse tomado para sempre a forma que o vento, numa disparada, numa carreira descontrolada, lhe impusera. É como se o metal escorresse para a parte de trás, impulsionado por alguma velocidade antiga. Os faróis pontiagudos olham com certa raiva quem está à frente. O Ka tem sempre as sobrancelhas arqueadas, a ponta do meio baixa, num cenho franzido. As rodas mais esportivas, com seu vários aros de metais reluzentes cruzados, são como uma boca aberta cheia de dentes, prontas a mordiscar ao menos um pé pedestre incauto que tenha se aventurado para além do meio-fio.

Como será a próxima geração de carros populares? Que a evolução continue.

(Novembro de 2005)


12.9.09

...

Uma vez experimentada a doce dor da lucidez, desfaz-se a neblina da ignorância, da crença, da imortalidade do dinheiro. Você morre um dia, e isso é a coisa mais barata que faz o homem. Ele morre, ela morre. Todo dia, e isso não é triste, isso simplesmente é. O tempo torna as coisas melhores, faz a habilidade mais apurada, o conselho mais sábio, o vinho mais caro. Daí que a perfeição e a maestria estão no limiar da vida, que é o máximo a que se pode chegar - um segundo antes é o mais sábio que você jamais terá sido. Uma vez experimentada a dor da lucidez, os outros te pensarão insensível, às vezes vil, mas não saberão que a dor da lucidez vem um pouco a cada instante e que a tragédia que balançará um cego, você já a sofria sem saber muito e muito antes que acontecesse e continuará sofrendo para sempre. Quem experimenta a doce dor da lucidez dilui o desespero passageiro em melancolia contínua e difusa. Quem experimenta a dor chora para dentro, faz fluir as lágrimas invisíveis do mundo para seus olhos.